As portas da Universal estão abertas diariamente para acolher imigrantes que vivem em São Paulo oprimidos por problemas que vão do abuso físico à falta de amor próprio
Um crime bárbaro chocou a população, no último dia 28. Seis ladrões mataram, com um tiro na cabeça, o menino Bryan Yanarico Capcha, de 5 anos, durante assalto à residência de seus pais, Veronica Capcha e Edberto Yanarico Quiuchaca, bolivianos, que viviam na região de São Mateus, zona leste de São Paulo. O motivo da morte, segundo a mãe, foi o choro da criança que irritou um dos bandidos. O casal, que estava no Brasil havia 6 meses, e em situação legal, retornou à Bolívia, logo após o assassinato de Bryan.
A família acima faz parte do número de imigrantes legalizados que vivem no Brasil: 1,5 milhão, de acordo com dados divulgados em 2012 pelo Ministério da Justiça. Entretanto, há milhares que entram no País ilegalmente, apenas com o visto de turista, que tem validade de 90 dias, podendo ser prorrogado por mais 90. Com o vencimento desse prazo, a situação passa a ser irregular. Ainda há casos de imigrantes vindos de países vizinhos que não portam nenhum tipo de documento.
“Muitos vêm para o Brasil fugindo da miséria que vivem em seus países com promessa de emprego melhor. Aqui começam a trabalhar nas oficinas de costura e pequenas confecções, que os obrigam a cumprir uma rotina diária de mais de 12 horas de trabalho, por uma remuneração irrisória, que chega a 100 reais por mês, morando em habitações coletivas apertadas. Aqueles que conseguem juntar dinheiro com o trabalho se tornam presas fáceis para os bandidos, que sabem que os que aqui estão ilegalmente não têm conta em banco, assim são obrigados a ficar com o dinheiro em casa ou carregar por onde for”, destaca o pastor Ricardo Cis, que há mais de 7 anos realiza um trabalho especial para os hispanos de São Paulo, no bairro do Brás.
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O pastor explica que o caso do menino Bryan é apenas um dos crimes que acontecem diariamente na região do Brás, Pari e Bom Retiro, regiões de grande concentração da população imigrante, a diferença é que ganhou repercussão por causa da mídia. “Não são poucos os relatos de assaltos, abusos físicos e psicológicos que os imigrantes que aqui chegam nos contam. São muitos. Mas, como eles temem serem deportados, não fazem boletim de ocorrência e nem procuram ajuda. Alguns demoram meses para se abrir conosco. Só decidem desabafar quando são tocados pela Palavra de Deus e pelo Espírito Santo. Mas quando o fazem, é como tivessem tirado um caminhão de cima de seus ombros.”
Recentemente, Carlinda Tinôco (foto abaixo), responsável pelo Grupo Raabe, que oferece apoio às mulheres vítimas de agressão e abuso, recebeu no espaço dos hispânicos a boliviana que vamos identificar apenas como J., de 22 anos. Em prantos, ela contou à Carlinda que numa dessas oficinas de costura foi abusada sexualmente por cinco paraguaios, colegas de trabalho que, não satisfeitos, repetiram o ato por mais cinco vezes consecutivas. Com medo de ser expulsa do lugar, a costureira sofria calada, até que descobriu que estava grávida.
“Ela chegou aqui com 4 meses de gestação. Como temos parceria com o Hospital Pérola Byington – centro de referência da saúde da mulher –, a encaminhei para um tratamento especial lá, que poderia facilitar o aborto, caso ela optasse por isso. Porém, com medo de ser deportada ou sofrer outras consequências piores dos agressores, ela sumiu por 2 meses. Nesta semana ela apareceu, porém, agora, o aborto não poderá ser feito. Mesmo assim, estamos prestando todo apoio a ela, que tem participado das reuniões toda semana”, conta Carlinda.
Aprender a se valorizar e a não aceitar mais o sofrimento calado é um dos diversos conselhos que os hispanos recebem todas as quartas-feiras e domingos, dias que acontecem reuniões na igreja localizada na Rua Carlos Botelho, anexo ao Templo da Universal do Brás. Nos outros dias, as portas ficam abertas, pois a qualquer momento pessoas na situação de J. ou piores podem precisar de ajuda.
“O trabalho surgiu porque percebemos que muitos iam à Igreja, porém, não permaneciam por não compreenderem a mensagem transmitida por causa do idioma português. Nós fazemos os encontros e atendimentos em espanhol e, em algumas ocasiões, obreiros conhecedores dos dialetos indígenas realizam orações nas línguas aymaras, quíchua e guarani. Fazemos questão também de distribuir panfletos, estudos em espanhol, como também homenagear as datas folclóricas de cada país com a apresentação de vídeos e documentários”, explica o pastor argentino.
Tamanha dedicação da parte dos voluntários da Universal faz com que os hispanos se sintam acolhidos por uma família brasileira que não visa explorá-los, mas mostrar uma fé num Deus de resultados, algo extremamente novo para muitos.
“Eu percebi que meu amigo estava indo aos encontros dos hispanos na igreja e estava diferente. Eu queria esse algo especial que ele tinha. Graças a Deus encontrei. Tudo aqui me chamou atenção. Recebi uma paz imensa e uma força inexplicável para enfrentar e vencer os problemas. Eu agora recebo um cuidado que desde que cheguei ao Brasil nunca havia recebido. É tudo muito bom”, comemora o peruano, que após exercitar a fé já está trabalhando por conta própria no ramo de corte de tecidos, tendo até funcionários, que trabalham em condições dignas, como faz questão de ressaltar. “Não quero para ninguém o que passei, pelo contrário, convido todos meus funcionários a participar das reuniões aqui comigo.”
A repórter da IURD TV, Thaís Gomes, ano passado, foi conhecer melhor a realidade desses imigrantes hispanos e também conversou com mais pessoas que foram beneficiadas pelas reuniões especiais da Universal. Confira:
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